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Categoria: Paulinho Moska

Uma careta ridícula imitando uma mosca foi a responsável pelo apelido que gerou o nome artístico de Paulo Corrêa de Araújo (Rio de Janeiro, 1967). Uma obsessão por se fotografar em espelhos de banheiros de hotéis se transformou em um álbum e o aproximou do uruguaio Jorge Drexler, em meados de 2003.

Desde então, Paulinho Moska não é mais o mesmo. O jovem maluco que era um dos membros dos grupos Garganta Profunda e Inimigos do Rei virou o “embaixador do Brasil na América Latina”. A loucura não ficou de lado, pelo contrário, ela o aproximou de vários outros cantores e compositores latino-americanos. E também o fez manter algumas outras manias, como a de colecionar saquinhos de vômito. “Tenho quase cem”.

Agora, após fazer dezenas de shows ao lado de Drexler, do argentino Kevin Johansen e de outros colegas do continente, ele deve lançar em novembro um CD que está gravando com o argentino Fito Páez. “Chegar no Fito é quase um prêmio dessa dedicação de quase doze anos de apresentar o Brasil para o nosso continente”, diz ele em entrevista ao EL PAÍS. O disco por enquanto se chamará Hermanos e pode ter até 18 músicas.

Para um artista com 21 anos de carreira solo, que começou tocando violão em uma igreja católica, Moska tem números relevantes. Já gravou dez álbuns de inéditas, com cerca de 130 composições próprias, apresenta o programa de TV Zoombido (Canal Brasil), que chegará em sua décima temporada em 2015, e se prepara para iniciar a segunda etapa na HBO do programa Encuentros, ao lado com seis artistas latino-americanos. Além disso, ainda quer promover dois festivais da América do Sul, um deles no Rio de Janeiro. A seguir, a entrevista que concedeu em um hotel de São Paulo poucas horas antes de um show na capital paulista.

Pergunta. Por que, ao contrário de outros artistas brasileiros, você se aproximou tanto de seus colegas latino-americanos?
Resposta. Eu não busquei. Eu sou como qualquer brasileiro, a gente é educado achando que somos superiores. A gente pensa que o argentino é o gringo, é nosso inimigo na Copa do Mundo, os chama de bandalheiros; que o Paraguai só tem produto falso, e qualquer coisa falsificada é paraguaia; que a Colômbia só tem traficantes de cocaína; os peruanos e os chilenos com suas flautinhas andinas. Ou seja, de colocar, equivocadamente, a América do Sul como uma coisa muito menor. Cresci ignorando a língua espanhola. Tudo colaborava para uma criança nascer e um jovem crescer como qualquer outro jovem, com um preconceito. Era uma ignorância. O que aconteceu comigo foi natural, eu não busquei e não buscaria por causa desse preconceito.

P. E como foi essa quebra de preconceito?
R. Eu vim fazer um show em São Paulo e uma uruguaia, que depois se tornou minha amiga, me deu um disco do Jorge Drexler, com uma carta assinada por ela. Eu ganho discos em todos os meus shows, ganho uns quatro ou cinco. E é muito natural eu colocar em cima da minha pilha, que tem mais de 80 discos, e na maioria das vezes não consigo ouvir. Mas, de vez em quando, uma capa, um nome, um amigo, uma indicação, alguma coisa te chama a atenção e você escuta. No caso desse disco, eu peguei a carta da moça que me explicava quem era o Drexler. A carta era poeticamente escrita, com jogos de palavras que eu uso, ela me falava do nosso espelhamento. Ela usou a minha linguagem para me tocar. E me tocou.

P. Quando foi isso?
R. Foi em 2003. Quando eu botei o disco a primeira canção que eu escutei foi La edad del cielo. Eu estava me separando do meu primeiro casamento, morando sozinho, com muitas questões pessoais, de começar de novo (e por isso o disco que lancei na sequência se chama Tudo novo de novo), e quando ouvi “Calma, tudo está em calma, deixa que o beijo dure, deixe que o tempo cure” soou meio mântrico. Foi algo que me pegou. Depois que fiquei muito apaixonado, ouvi o resto do disco. Aí, já muito tomado pelo sentimento “drexleriano”, tive a curiosidade para entender o que ele estava falando. E para a minha sorte, ele tinha uma letra facilmente traduzível.

P. Você não sabia nada de espanhol?
R. Não. Eu ouvi e me surpreendi. Ué, estou entendendo tudo. Talvez eu nunca tivesse prestado atenção no espanhol. Foi a primeira vez que eu prestei atenção e vi que era compreensível. Quando traduzi para o português, vi que a melodia também cabia. Com isso, passei a procurar o Drexler. Quando eu o achei, disse que tinha feito uma versão em português e que entraria em um estúdio em dois meses. Ele me respondeu um dia depois. Dizia que era louco pela música brasileira, que queria conhecer o Brasil, tinha acabado de ouvir meu som e pediu para me mandar o áudio. Eu mandei, ele gostou, ele veio ao Brasil, ficou cinco dias na minha casa e gravamos duas músicas, a Idade do Céu e Dos colores: Blanco e Negro.

P. E foi assim que começaram as parcerias?
R. Sim. O Drexler veio me acompanhar em um show no Canecão e pirou. Como retribuição ele me levou para Montevidéu onde cantei em quatro shows no teatro Solis. Absolutamente ninguém me conhecia lá e fui aplaudido de uma maneira diferente do que no Brasil.

P. Talvez porque você era uma surpresa?
R. Pode ser. Mas a partir daquele ponto começou minha grande história na América do Sul. Era a reabertura do teatro, um momento propício, tinha muitos músicos, a nata. Dois meses depois fiz meu próprio show em Montevidéu para 300 pessoas e o Drexler me apresentava as pessoas e eu a ele. Quando a gente foi fazer um show na Argentina, ele me apresentou o Kevin Johansen, e por uns três anos nos apresentamos juntos na América do Sul e na Espanha. Acabou virando a minha vida. Foi pelo ser humano, pelo encontro, pela ética “portunhol”, não pela língua “portunhol”. Foi pelo desejo e pela surpresa de descobrir que eles são muito mais parecidos com a gente do que os norte-americanos ou europeus. Percebi que estamos de costas não para o vizinho, mas para o irmão.

P. Os dois, Drexler e Kevin, te integraram com os demais.
R. Por eles me chegaram [os argentinos] Lisandro Aristimuño e Pedro Aznar, Andrea Echeverri, da Colômbia, Fernando Cabrera e Ana Prada, do Uruguai, Francisca Valenzuela e Nano Ster, do Chile, Natalia Lafourcade, do México. Aí um emendou no outro. Comecei a organizar os festivais juntando essa galera.

P. Foi quando você passou a ser chamado de embaixador da música brasileira.
R. Sim. Era algo bom, mas um tanto constrangedor. Eu fiz tão pouco, cantei com uns amigos, aqui e ali. Mas aí eu descobri que não havia nada sendo feito. Por isso eu, um louco, que estava ali se divertindo, curtindo, acabei levando esse “título”.

P. Por qual razão se aproximou desses artistas especificamente?
R. Acabei me envolvendo com meus espelhos. São “cantautores”, compositores que interpretam e não são necessariamente folclóricos. Defendem suas canções com uma estética e ética artística. São seres exuberantemente únicos.

P. Como essa aproximação mudou a sua vida?
R. Me acrescentou muito. A partir do encontro do Drexler, eu gravei duas músicas com ele. Depois com o Aznar e o Kevin, organizei dois festivais de encontros humanos. Eu passei a entender a América do Sul. Estudei o espanhol para me aproximar da música do nosso continente.

P. E o Fito Páez? Você não vai gravar um CD com ele?
R. Sim. Ainda neste mês a gente entra em estúdio e pretendemos gravar muito rapidamente. Vamos lançar em novembro no Brasil e até fevereiro na Argentina. Estamos compondo desde o início do ano juntos. Combinamos alguns encontros. Fui três vezes a Buenos Aires e compúnhamos juntos. O Fito é uma fogueira. A coisa acontece muito rápido. O Fito há muito tempo flerta com o Brasil, já gravou o Caetano Veloso, cantou com Chico Buarque, Djavan, Milton Nascimento, Titãs, Paralamas do Sucesso. Ele já abriu o leque de MPB e rock. Ele é um roqueiro muito erudito. E eu de alguma maneira fiz esse mesmo caminho dele, cantando com os outros músicos da América do Sul. Mas chegar no Fito é quase um prêmio dessa dedicação de quase doze anos de apresentar o Brasil para o nosso continente.

P. Honestamente, você não almejava esse reconhecimento dos hermanos?
R. Imagina. Eu só queria fazer o meu som, gravar os meus discos. Mas uma coisa humana me atravessou. Como eu disse, primeiro, eu tive um constrangimento, agora tenho uma sensação “cheguevariana” de correr essa América e falar: “vocês estão loucos? A gente é um povo só. A gente é muito parecido”. É uma briga muito ridícula. Parece Itabuna e Ilhéus, São Paulo e Rio. Isso enfraquece um continente, num mundo que precisa cada vez mais ser um bloco.

P. Você não acha que essa briga interna, esse distanciamento, não seria algo incentivado pelos países mais poderosos?
R. Acho que é algo cômodo. Na Europa todo mundo sabe quem é o Ronaldo, a Carmem Miranda e o Pelé e está bom assim. Como se nós continuássemos sendo uma selva com uma cantora com fruta na cabeça e um negão que joga futebol bem. É cômodo para os Estados Unidos e para a Europa, a verdadeira elite branca, que fiquemos assim. Não que haja uma conspiração, mas há uma comodidade que resulta em um controle. Se aqui houvesse oito, dez, doze línguas diferentes, como há na Europa, a integração seria mais difícil. Aqui não. São só duas línguas nem tão diferente.

P. Você fala muito de imagens, de espelhos e seu programa, o Zoombido, é muito isso. Me causou um certo estranhamento quando o assisti pela primeira vez e me perguntei, isso tudo é proposital?
R. É, sim. É tudo muito pensado. Já gravei 230 programas e vai entender que funciona como um relógio. Grava em três horas. Eu não falo no programa, sou o “antiapresentador”. A ideia era ser arrojado. Eu vinha fotografando espelhos, e por isso levei esses espelhos para o programa, e encontrei o tijolo de vidro que fotografo os artistas.

P. De onde vem essa criatividade?
R. Eu acredito muito no processo. Eu não sei para que vai me servir algumas coisas, mas eu faço. Por exemplo, eu faço coleção de saco de vômito de avião. Tenho quase cem. Comecei porque um dia eu li, em uma revista de avião, que existia um cara com quase 3.800 saquinhos. E quando eu li isso, guardei o primeiro saquinho. Assim começou uma obsessão. Não sei para que vai me servir, mas pode servir para algo. Algumas dessas coisas inúteis podem se transformar em alguma coisa. O Tudo Novo de Novo é um disco todo com fotografia do meu próprio rosto em objetos espelhados dentro de banheiro de hotéis.

P. Curioso.
R. Eu chegava no hotel e fazia um retrato do meu rosto no espelho, na maçaneta, no vaso sanitário, no chuveiro, no porta toalha, no porta papel higiênico, em tudo que tivesse reflexo. Eu fiz 4.000 fotos. É claro que eu estava obcecado e louco. Mas na número 500 eu dei um nome para uma fotografia diferente, que me pareceu ser um retrato, eu chamei de lágrimas de diamante. Três meses depois, eu estava fazendo na Chapada Diamantina fazendo um show, lembrei da foto e cantarolei um refrão que, quando cheguei em casa, virou a música com o mesmo nome da foto. Aí eu imaginei que eu poderia fazer um disco com as fotos que fiz nos banheiros de hotéis. A partir dessas 4.000 fotos fiz 13 músicas que entraram no disco Tudo Novo de Novo, que foi o disco em que chega ao Drexler. É algo que chegou por conta de um processo quase esquizofrênico.

P. O próximo disco será baseado nos seus sacos de vômito, então?
R. Não sei se um disco ou uma canção. Pode não servir para nada. Tenho coleção de chaves de hotel, de bloquinhos de papel, muitas delas já me deram pistas das coisas. E isso é só uma metáfora de como eu vivo em casa, com meus filhos. Me sinto muito misturado. Não sou um cara que pode te dar uma referência em literatura. Não me sinto nem sequer um grande músico. Sou um artista singular, que quer trabalhar com as linguagens que não tem domínio para justamente na ingenuidade de não dominar a linguagem poder criar uma coisa nova, através de uma certa ignorância. Tenho um pouco o olhar de mosca.

P. Voltando ao disco com o Fito, como ele será?
R. Temos 18 músicas. Algumas minhas, outras deles e oito nossas. O projeto, por enquanto, se chama Hermanos. Cada encontro nosso é muito produtivo. Ainda não temos nada fechado. Se ele entrar com uma ideia nova e propor, eu também vou topar porque aquilo celebra uma coisa que está naquele momento. Quanto mais fiel ao presente você estiver, mais poderoso será o que você vai criar.

P. Na sua opinião, o que deve ser feito para frear a pirataria?
R. A música é invisível. Ela não existe materialmente, ou só os físicos digam que ela exista. Mas ela não é para estar em um lugar físico. A música é para estar no ar. Você tem de ter acesso a sua discoteca. É algo para se pensar. A rigor, música não é para ser vendida porque ela não é uma coisa. Sobre o momento que está acontecendo, acho que as gravadoras demoraram um tempo demais para se integrar a questão da música digital, agora elas têm de negociar com quem se adiantou. Sou autor e acho que o direito do autor tem de ser mantido porque muitos autores não são os que ganham dinheiro, que são os que se apresentam. Me preocupa a coisa do direito autoral, não por mim, porque eu me sustentaria com os meus cachês de shows, mas não posso menosprezar isso. O Aldir Blanc, ganha como autor. Ao mesmo tempo, vivemos em um mundo dinâmico e isso pode ser mudado também. Ainda estamos na pré-história digital. Estamos em uma evolução em que vai existir uma sociedade informatizada com novas regras e novas maneiras de se pagar ao autor e manter o cara que cria. Se você manter só o cara que canta, e não o que cria, ele vai cantar o quê?

Fonte: El País